| |
Programação
didática reuniu professores, bailarinos e estudantes
de dança no Teatro Juarez Machado, segunda-feira (dia
22)
Além
das apresentações oficiais nos palcos do Centreventos
Cau Hansen e no Teatro Juarez Machado, e das atividades artísticas
paralelas em locais alternativos da cidade, o Festival de
Dança de Joinville programou para esta segunda-feira
(22) um dia especialmente dedicado a palestras, debates e
workshops. Uma extensa programação, que reuniu
professores, bailarinos, coreógrafos, estudantes e
todos aqueles interessados em discutir os caminhos da dança.
A manhã didática começou com a palestra
do médico ortopedista do Ballet do Teatro Municipal
do Rio de Janeiro, Carlson Binatto, que falou sobre o tema
"Prevenção das lesões do aparelho
locomotor mais freqüentes no ballet". O especialista
em traumas e deformidades, defende a teoria de especificidade
de movimento-força através da dança e
por meio de técnicas que obedeçam uma metodologia
de trabalho. Fez uma análise sucinta do comportamento
bio-mecânico do corpo humano e ressaltou a importância
de se conhecer e estudar os grupamentos musculares para prevenir
possíveis lesões. "A repetição
acentuada e exaustiva de determinados movimentos propicia
o aparecimento da fadiga muscular que leva a lesões.
É preciso respeitar a fisiologia muscular", frisa
Binatto. O especialista explica que são inúmeras
as patologias provocadas pelo uso inadequado da "força
de equilíbrio". "Não existem fórmulas
para se tornar um grande bailarino. O que existe é
simples: alimentação saudável; horas
de repouso e preparação física",
ensina.
Em seguida, o crítico de dança do Jornal do
Brasil, Roberto Pereira, discorreu sobre o tema "O Balé
Romântico", referindo-se ao comportamento da sociedade
parisiense do século XIX, com relação
à arte. O professor de história da Dança
da Faculdade de Dança da UniverCidade (RJ), citou nomes
de bailarinos que fizeram época na Ópera de
Paris, por volta de 1836, com suas técnicas expressivas
ou puras. "É quando o romantismo ganha corpo e
se começa a criar uma oposição ao romântico",
comenta. Pereira também fez leituras interpretativas
de "Giselle", o maior representante do balé
romântico, comentando a dualidade que se cristaliza
em Giselle. "Nessa fase, o balé romântico
começa a apresentar efeitos especiais para que a narrativa
possa ser traduzida de forma cênica. O balé precisava
de vários elementos e muita coisa que acontecia naquela
época está presente até hoje tanto em
termos cênicos e coreográficos quanto nas idéias",
arremata.
O tema "Dança Contemporânea como instrumento
de linguagem inclusiva" foi abordado na palestra e no
workshop ministrados pelos coreógrafos Ivonice Satie
e Luís Ferron. A atividade, única do dia realizada
na Casa da Cultura, buscou mostrar a experiência positiva
do grupo Roda Viva e do projeto Mão na Roda, ambos
realizados na cidade de Diadema (SP) e direcionados à
dança para deficientes físicos. Para Ivonice,
o prazer de dançar é um direito de todos. "As
pessoas são diferentes em seus ritmos e os cadeirantes
também são, o que não os impede de experimentar
o prazer da dança, que é muito maior e mais
importante", completa. Para Ferron, que coordena o projeto
implantado em 1999 e que tem em seu grupo, atualmente, 11
cadeirantes, a inclusão deve abranger todas as deficiências
sociais. "Queremos contaminar as pessoas a trabalhar
em prol da inclusão, abrindo espaço e fazendo
toda a sociedade dançar". Um dos integrantes do
projeto Mão na Roda, Oswaldo Silvério, participou
do workshop e depôs a favor da iniciativa. "A dança
resgatou minha auto-estima. Agora me sinto uma pessoa eficiente",
afirma.
Dando continuidade à programação voltada
à fundamentação teórica, a bailarina
e professora da Faculdade de Educação da Unicamp
Márcia Strazzacappa, refletiu sobre o tema "Dança
e Educação - Perspectivas para o século
XXI". A palestrante salienta que para cada estética
existe uma técnica específica. "Toda estética
contém uma técnica e vice-versa", frisa,
acrescentando que a formação do professor de
educação física não tem uma perspectiva
de um profissional de dança. Ela ressalta que de acordo
com a LDB - Leis de Diretrizes e Bases de número 9394/96,
o ensino de arte passa a ser conteúdo obrigatório
nas escolas de ensino fundamental. "A lei diz que as
quatro linguagens artísticas devem ser contempladas,
ou seja, artes visuais, música, teatro e dança",
contextualiza Márcia. "Quem está habilitado
para ensinar dança nas escolas? Apenas o licenciado
pode lecionar nas escolas de ensino formal, mas existem poucas
universidades que oferecem licenciatura em dança",
lança.
Quantos corpos habitam o corpo do bailarino? Essa pergunta
conduziu a palestra do Prof. Dr. Edson Claro no Teatro Juarez
Machado na tarde dessa segunda. Pós-Doutorado em Dança
Espetáculo em Lisboa, Edson apresentou a importância
do alongamento em diferentes modalidades físicas. A
partir do conhecimento do próprio corpo, as pessoas
descobrem novos movimentos criando corpos de dança
diferentes. Dançarinos clássicos podem desenvolver
o corpo contemporâneo a partir de um treinamento sem
perder o clássico, ou características desse.
Toda a carga física adquirida por um cidadão
em toda sua vivência fica armazenada, como arquivo de
descoberta para novos movimentos. O bailarino deve estar em
sintonia com aspectos como sociedade, psicologia, equilíbrio
e coletividade. Em um ballet de repertório, a coreografia
deve ser sentida como uma única emoção
por todos, como um só corpo no palco.
Bailarinos e estudantes de dança puderam reviver a
"Memória da Dança Brasileira", com
a presença de convidados especiais como Dalal Achcar
(RJ), Tatiana Leskowa (RJ) e Ismael Guiser (SP), compartilhando
um momento significativo na história do Festival de
Dança de Joinville, voltando ao passado para entender
o presente e projetar o futuro. Os convidados falaram sobre
a evolução do ensino da dança no Brasil.
"Não é fácil em nenhum lugar do
mundo", frisa Ismael, que defende a unificação
da dança brasileira."Temos informações,
temos técnica e temos que chegar a um denominador comum
sem fugir de nossa identidade", ressalta. Tatiana Leskowa
fez um paralelo entre a formação do bailarino
nacional e a formação do bailarino internacional.
"Não podemos comparar o europeu com o brasileiro.
No Brasil há excelentes profissionais, mas que não
têm oportunidades, não conseguem produzir".
Dalal fala da produção artística no Brasil.
"O que deve ser pensado em todas as academias de dança
é: como vamos atingir o público? E olhar para
a dança como um todo. A dança é fundamental
para a cultura do nosso país, que está ávido
e cheio de talentos. Um país se faz respeitar pela
ciência e pela cultura. Temos esse potencial",
comenta.
Para fechar a tarde didática, foi realizado o fórum
"Dança é Arte" com Márcia Strazzacappa,
Rosane Gonçalves e Dulce Aquino, que fazem parte da
Comissão Executiva do Fórum Nacional da Dança,
instância de representação, organização
e ação política dos artistas da dança,
instalado em Curitiba em janeiro de 2001. Os palestrantes
fizeram um relato das últimas ações do
fórum e comentaram sobre a atuação do
artista da dança no Brasil. Os focos de discussão
e a luta hoje são a organização e defesa
da classe através da criação da Associação
ao Fórum Nacional da Dança, os aspectos legislativos
(regionais e nacionais) relacionados à atuação
e formação do professor e do profissional da
dança.
Voltar
|